“Geração digital”: por que nossos filhos estão menos inteligentes

“Geração digital”: por que nossos filhos estão menos inteligentes

Nunca se falou tanto em uso de tela na infância quanto agora, durante a pandemia do novo coronavírus. Apelar para a televisão, tablets e videogame acabou sendo um recurso para muitos pais que viram a rotina bagunçada, com os filhos em casa, sem uma rede de apoio e tendo que trabalhar à distância. Mas as consequências de atitudes como esta, de permitir o uso ilimitado da tecnologia por crianças e adolescentes, são assustadoras. Vão muito além do sedentarismo e da qualidade do sono. A geração atual está “emburrecendo”, é o que afirma o neurocientista francês Michel Desmurget no livro “A Fábrica de Cretinos Digitais”. Segundo ele, testes de QI (Quociente de Inteligência) têm apontado que os chamados “nativos digitais”, que nasceram após os 1980, com uso difundido de tecnologia no dia a dia, são menos inteligentes que as anteriores. São os primeiros filhos a ter QI inferior ao dos pais, apontam testes de inteligência aplicados e comparados entre as gerações.

“Simplesmente não há desculpa para o que estamos fazendo com nossos filhos e como estamos colocando em risco seu futuro e desenvolvimento”, diz o especialista em entrevista à BBC News. Desmurget é autor de diversos estudos científicos e tem experiência em centros de pesquisa renomados como o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e a Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos. Em seu livro, ele apresenta mostra como os dispositivos digitais estão afetando seriamente — e para o mal — o desenvolvimento neural de crianças e jovens.

>> Obesidade infantil aumenta com o isolamento social

Historicamente, os pesquisadores em muitas partes do mundo observaram que o QI aumentou de geração em geração. Isso foi chamado de ‘efeito Flynn’, em referência ao psicólogo americano James Flynn, que, em 1982, descreveu esse fenômeno. Mas recentemente, segundo Desmurget, essa tendência começou a se reverter em vários países, como Noruega, Dinamarca, Finlândia, Holanda, França, entre outros.

Mas o que está causando essa redução no QI? Ainda há questões a serem esclarecidas mas, segundo ele, a certeza é que mesmo que o tempo de tela de uma criança não seja o único culpado, isso tem um efeito significativo em seu QI. “O problema com as telas é que elas alteram o desenvolvimento do cérebro de nossos filhos e o empobrecem”, diz o neurocientista francês.

>> Covid-19: o impacto do isolamento social na vida das crianças

Você já parou para pensar quanto tempo do dia, da semana, do ano… da infância! uma criança passa diante de uma tela? O especialista dá estes números: com apenas 2 anos de idade, uma criança fica, em média, 3 horas por dia em frente aos dispositivos eletrônicos. Com 8 anos, esse tempo aumenta para 5 horas, chegando a mais de 7 horas na adolescência. “Isso significa que antes de completar 18 anos, nossos filhos terão passado o equivalente a 30 anos letivos em frente às telas ou, se preferir, 16 anos trabalhando em tempo integral! É simplesmente insano e irresponsável”, alerta o especialista.

MenosTelas #MaisSaúde

Durante a pandemia, por exemplo, o próprio conceito de “tempo de tela” foi colocado em xeque, já que muitas atividades migraram para o ambiente virtual. Crianças e adolescentes recorreram à tecnologia para reunir-se com amigos ou manter contato com os avós. Sem contar as aulas que passaram a ser online. O neurocientista pondera que o problema não está nesses usos, que as ferramentas digitais são positivas quando efetivamente transmitem conhecimento. Mas a finalidade pedagógica não é a que prevalece normalmente quando crianças e adolescentes têm acesso livre à tela. Geralmente, a maior parte do tempo é ocupada por usos recreativos mais empobrecedores (filmes, séries, clipes, jogos, redes sociais).

Mas por quanto tempo por dia é saudável uma criança ter acesso a tela? Desmurget tem uma visão bem rígida para a idade pré-escola: até seis anos, o ideal é não ter telas defende. E, em qualquer idade, o mínimo é o melhor.

Em fevereiro deste ano, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) divulgou o Manual de Orientação #MenosTelas #MaisSaúde com o objetivo de promover a saúde e o bem-estar de crianças e adolescentes em contato constante com tecnologias digitais, como smartphones, computadores e tablets. O documento complementa e atualiza as recomendações lançadas pela entidade em 2016 sobre o tema.

Segundo o manual da SBP, os dispositivos digitais preenchem vácuos – ócio, tédio, necessidade de entretenimento, abandono afetivo ou mesmo pais ‘ultraocupados’, muitas vezes, com seus próprios celulares. As consequências, tanto do acesso a conteúdo inadequado quanto do uso excessivo, têm sido constatadas nos relatos de distúrbios de aprendizado, baixo desempenho escolar, atrasos no desenvolvimento, entre outros.

O Manual de Orientação da SBP traz também ressalvas sobre o hábito cada vez mais frequente de oferecer para a criança o smartphone ou celular dos pais, como forma de distrair a atenção do bebê. No documento, escrevem que crianças em idades cada vez mais precoces estão tendo acesso aos equipamentos eletrônicos, “sempre com o objetivo de fazer com que a criança fique quietinha”. Esse comportamento é chamado de distração passiva, justamente o contrário de brincar ativamente ou socializar, aspectos importantíssimos para o desenvolvimento da criança. Já fizemos um post com dicas para incentivar seu filho a brincar sozinho.

Os malefícios dos dispositivos digitais às crianças

Segundo o neurocientista francês Michel Desmurget:

  • Diminuição da qualidade e quantidade das interações intrafamiliares, essenciais para o desenvolvimento da linguagem e do emocional;
  • Diminuição do tempo dedicado a outras atividades mais enriquecedoras (lição de casa, música, arte, leitura etc.);
  • Perturbação do sono, que é quantitativamente reduzido e qualitativamente degradado;
  • Superestimulação da atenção, levando a distúrbios de concentração, aprendizagem e impulsividade;
  • Subestimulação intelectual, que impede o cérebro de desenvolver todo o seu potencial;
  • Sedentarismo excessivo que, além do desenvolvimento corporal, influencia a maturação cerebral



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *