A culpa materna na pandemia

A culpa materna na pandemia

Quem é mãe sabe: maternidade e culpa andam de mãos dadas. Nem sempre numa relação muito saudável: ela machuca, faz doer, faz chorar, sem dó nem piedade (isso quando não tira o sono também!). A sensação de estar “deixando a desejar” na criação dos filhos não é algo incomum em tempos de vida normal. Na pandemia, então, no isolamento social, o tormento de se sentir uma “péssima mãe” se intensifica. Muitas vezes, o sentimento de que as crianças estão sendo prejudicadas com mudanças tão drásticas na rotina e a angústia frente às emoções negativas vivenciadas por elas, como tristeza e revolta, são comuns entre as mães. A culpa materna na pandemia é mais um aspecto a ser trabalhado nessa quarentena que já dura meses.

Ela chega a todo momento: culpa por deixar os filhos muito tempo na frente de telas; culpa por não brincar o suficiente com eles; por ter de trabalhar; por não ter proposto uma atividade diferente; por ter dado um sanduíche no almoço; por ter se estressado, gritado e perdido a paciência. Se a mãe acompanha as redes sociais, então, a lista de culpa é muito maior. Basta ver a obra de arte feita com material reciclável pelo filho da amiga para questionar a sua capacidade de entreter as crianças com atividades lúdicas.

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“As mães já carregam uma culpa de estar acertando ou não na criação dos filhos, exagerando ou deixando aquém; ao fazerem coisas que já é sabido que não são ideais, essa sensação aumenta”, diz a psicopedagoga Larissa Fonseca para o UOL. “Só que na pandemia foi preciso ceder a questões, como deixar mais nas telas, alimentação mais desregrada, por um aspecto de praticidade. São ajustes para a própria sobrevivência.”

O fato é que a quarentena trouxe o estresse para dentro de casa – e muitas vezes as mães são as mais atingidas – diante do malabarismo para conciliar trabalho com cuidados da casa e atividades com as crianças, com jornadas muitas vezes intermináveis. Em reportagem da BBC News Brasil, a psicóloga Desirée Cassado fala sobre como as pequenas “aldeias” que ajudavam no cuidado com os filhos foram desestruturadas. “O aumento de demanda dentro de casa foi muito grande (com a pandemia), e a gente sempre dividiu os cuidados das crianças com outras mulheres, seja na escola, com as avós ou funcionárias – uma vila que deixou de existir”, diz. O resultado são “pais mais irritados, culpados e ansiosos”.

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As circunstâncias atuais também colocam em evidência o “trabalho invisível” que costuma ser responsabilidade primordialmente de mulheres, diz Cassado. De acordo com pesquisa do IBGE, divulgada em 2019 – portanto, antes da pandemia –, em média, as mulheres brasileiras dedicam o dobro do tempo dos homens a afazeres domésticos e cuidados de pessoas.

Como lidar com a culpa materna?

Para amenizar o sentimento de culpa, a mulher precisa entender que ela não tem obrigação (nem consegue!) de dar conta de tudo. E que tudo bem se a louça dormir na pia, o filho passar mais tempo do que de costume na frente da televisão ou uma demanda do home office ficar para o dia seguinte. Não precisa se sentir frustrada nem culpada por isso. Estamos vivendo uma situação atípica e, como tal, precisamos nos adaptar a ela. Entenda como uma fase, e fases são passageiras.

E o mais importante: não exija tanto de você. “Devemos olhar com mais empatia para nós mesmas. Será que está dando tudo errado mesmo ou estamos em uma busca eterna de uma perfeição utópica. Respire fundo e busque avaliar a situação com serenidade para agir e combater o que incomoda”, afirma Mariana Luz, CEO da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, em reportagem intitulada “Mães em home office precisam se livrar da culpa de não dar conta dos filhos e do trabalho”. Para ela, este pode ser um momento de oportunidade. “Quantas mães se culpavam por sair cedo e voltar apenas para colocar as crianças para dormir? Agora temos o dia todo com eles. Meu convite é para, juntos, tornarmos esses momentos ricos e prazerosos. Não deixemos essa oportunidade passar.”



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